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Mostrando postagens de março, 2019

O antigo conto russo de “Vasalisa ” é a história praticamente intacta da iniciação de uma mulher.

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Ele trata da percepção de que a maioria das coisas não é o que parece. Como mulheres, recorremos à nossa intuição e aos nossos instintos para farejar tudo. Usamos nossos sentidos para espremer a verdade das coisas, para extrair o alimento das idéias, para ver o que há para ser visto, para conhecer o que há para ser conhecido, para ser as guardiãs do fogo criativo e para ter uma compreensão íntima dos ciclos de vida-morte-vida de toda a natureza — assim é uma mulher iniciada.

O resgate da intuição como iniciação

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A intuição é o tesouro da psique da mulher. Ela é como um instrumento de adivinhação, como um cristal através do qual se pode ver com uma visão interior excepcional. Ela é como uma velha sábia que está sempre com você, que lhe diz exata-mente qual é o problema, que lhe diz exatamente se você deve virar à esquerda ou à direita. Ela é uma forma de velha La Que Sabe, Daquela Que Sabe, da Mulher Selvagem.

As tradições e saberes do feminino eram passados desde a infância e ao longo da vida de uma mulher.

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Muitos eram os ritos de passagem que preparavam e celebravam as novas fases pelas quais a mulher passava, como a menarca, a gestação, a menopausa e também, todos os conselhos que eram partilhados entre mulheres, quando estas reuniam-se em suas tendas vermelhas para menstruarem, parirem e simplesmente estarem juntas, passando adiante ensinamentos primordiais. Uma menina então era preparada pelas mulheres para menstruar, para entender as energias do seu corpo, como viver com elas e o que isso significaria. O mesmo acontecia para a sua primeira relação e vinculação com seus relacionamentos, com a gestação e parto, aprendendo a compreender o que são as transformações do corpo, o que ele é capaz de fazer, ao que deve-se preparar e como integrar-se com a sabedoria do bebê, desta alma que escolheu compartilhar essa jornada com você e vir ao mundo através de você. A maternidade então era vivenciada, muitas vezes, em conjunto com outras mulheres. Sendo que a própria ...

Matrilinearidade

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Matrilinearidade é uma classificação ou organização de um povo, grupo populacional, família, clã ou linhagem em que a descendência é contada em linha materna. É um conceito importante em paleoantropologia, no estudo da evolução da espécie humana, assim como na de outros mamíferos, pela análise do DNA mitocondrial. Organização de família, linhagem na qual só a descendência pela linha materna é levada em conta. Termo aplicado às formas ginecocráticas de sociedade, nas quais o papel de liderança e poder é exercido pela mulher e especialmente pelas mães de uma comunidade. Família que tem como base a mulher, mãe, filha. Na família matrilinear é o homem que deixa sua casa, abandona seus laços familiares e vai morar com a família da esposa, adequar-se a seu estilo de vida . Organização social de um povo, grupo populacional, família, clã ou linhagem onde a descendência é contada em linha materna. A liderança feminina em ocasiões publicas ou oficias onde as...

A iniciação feminina, diferentemente da masculina, acontece, como nesse conto, no aprendizado do ciclo da vida e da morte, pois a mulher contem em si os atributos da Grande Mãe naturalmente em seu corpo e psique.

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O nome Vasilisa é de origem grega e significa “Rainha”. A Rainha é uma mulher madura, que já não é menina e está pronta para assumir seu reino, ou seja, sua vida, seu trabalho, seus amores e sua riqueza de alma. Era uma vez, e não era uma vez, uma jovem mãe que jazia no seu leito de morte, com o rosto pálido como as rosas brancas de cera na sacristia da igreja dali de perto. Sua filhinha e seu marido estavam sentados aos pés da sua velha cama de madeira e oravam para que Deus a conduzisse em segurança até o outro mundo. A mãe moribunda chamou Vasalisa, e a criança de botas vermelhas e avental branco ajoelhou-se ao lado da mãe. — Essa boneca é para você, meu amor — sussurrou a mãe, e da coberta felpuda ela tirou uma bonequinha minúscula que, como a própria Vasalisa, usava botas vermelhas, avental branco, saia preta e colete todo bordado com linha colorida. — Estas são as minhas últimas palavras, querida — disse a mãe. — Se você se perder ou precis...

O monomito (às vezes chamado de "Jornada do Herói") é um conceito de jornada cíclica presente em mitos, de acordo com o antropólogo Joseph Campbell.

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“O herói, por conseguinte, é o homem ou mulher que conseguiu vencer suas limitações históricas pessoais e locais e alcançou formas normalmente válidas, humanas. As visões, idéias e inspirações dessas pessoas vêm diretamente das fontes primárias da vida e do pensamento humanos. Eis por que falam com eloqüência, não da sociedade e da psique atuais,em estado de desintegração, mas da fonte inesgotável por intermédio da qual a sociedade renasce. O herói morreu como homem moderno; mas, como homem eterno — aperfeiçoado, não específico e universal —, renasceu. Sua segunda e solene tarefa e façanha é, por conseguinte (como o declara Toynbee e como o indicam todas as mitologias da humanidade), retornar ao nosso meio, transfigurado, e ensinar a lição de vida renovada que aprendeu” - Joseph Campbell “O Herói de Mil Faces” Partida, separação Mundo cotidiano Chamado à aventura Recusa do Chamado Ajuda Sobrenatural Travessia do Primeiro Limiar Barriga da baleia Descida, Iniciação, Penetração E...

Cerzideiras, aquelas que recompõem fio por fio, fibra por fibra, a poesia dos tecidos.

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Costurar é ofício, cerzir é arte. Antigamente, as cerzideiras eram poucas, quase raras. Senhoras antigas, donas de um saber delicado, como a ternura. Para mim, mais que raras, eram inalcançáveis, as mulheres dedicadas ao cerzimentoeram comparadas às fiandeiras míticas, aquelas que teciam, esticavam, e depois cortavam o fio da vida. Mas as fiandeiras são trágicas, definitivas, fatais. O fio da vida não se recompõe. Mas, enquanto há vida… As cerzideiras simbolizam a continuação e a esperança. As cerzideiras também são símbolos de paciência, de busca da perfeição, mesmo para quem nunca se recompõe de nada e apenas segue pela vida, carregando histórias e engramas. Mesmo para quem rasga o tecido, tão logo veja nele sinais de esgarçadura. Elas são as amenizadoras, as calmantes.

Já que ninguém lhes pediu que escrevessem, muitas mulheres, através dos séculos, incubaram o sintoma canalizando-o na conversação ou nas tarefas domésticas...

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A VANGUARDA DOMÉSTICA Esta possibilidade feminina de espiar nas costuras para ver as construções pelo avesso abre à mulher, em sua relação com a escrita, o caminho da vanguarda. Vanguarda velha e nova na qual os textos deixam o leitor jogar com a artificialidade da feitura. E é na milenar escola das tarefas domésticas onde se aprendem as regras dessa modernidade. Velho como o mundo, somente o trabalho inútil e calado pode conseguir enlaces novos.

A Escrita Silenciosa das Mulheres

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Se a escrita e o silêncio reconhecem um ao outro nesse caminho que os separa da fala, a mulher, silenciosa por tradição, está próxima da escrita. Silenciosa porque seu acesso à fala nasceu no cochicho e no sussurro, para desandar o microfônico mundo das verdades altissonantes. Tão calada e lateral foi sempre sua relação com a marcialidade dos discursos estabelecidos, que os homens, paradoxalmente, qualificaram a mulher como “muito conversadeira”. E conversa não seria outra coisa que essa emaranhada mescla de níveis discursivos cujo dizer, como objeto, é o nada. Sussurrante conversa de mulheres foi criando uma cadeia inquebrantável de sabedoria por transmissão oral que nunca foi reunida em livros. Tamara Kamenszain

Meditar e costurar

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Reverência á maturidade feminina e os seus encontros.

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“As modernas contadoras de histórias descendem de uma comunidade imensa e antiqüíssima composta de santos, trovadores, bardos, griots, cantadoras, chantres, menestréis, vagabundos, megeras e loucos. Uma vez sonhei que estava contando histórias e sentia alguém dando tapinhas no meu pé para me incentivar. Olhei para baixo e vi que estava em pé nos ombros de uma velha que segurava meus tornozelos e sorria para mim. “Não, não” disse-lhe eu. “Venha subir nos meus ombros, já que a senhora é velha e eu sou nova.” “Nada disso” insistiu ela. “É assim que deve ser. Percebi que ela também estava em pé nos ombros de uma mulher ainda mais velha do que ela, que estava nos ombros de uma mulher usando manto, que estava nos ombros de outra criatura, que estava nos ombros… Acreditei no que disse a velha do sonho a respeito de como as coisas devem ser. A energia para contar histórias vem daquelas que já se foram. Contar ou ouvir histórias deriva sua energia de uma altíssima coluna de seres human...